Participar de uma prova expedicionaria de aventura fora do Brasil era um sonho há muito acalentado pela galera Brou Aventuras. Comentamos isso com o Pedro Pinheiro da Ultrasports de Floripa e ele disse que topava o desafio: já tinha participado do Tierra Viva 2009 e tinha muita vontade de voltar à prova e à região.

Patagônia aliás que só aumentou o interesse da galera em participar da prova, porque todos já conheciam a região de Bariloche e sabíamos que o lugar tinha paisagens espetaculares e possibilidades infinitas de se fazer uma prova inesquecível. E assim foi.

Chegamos em Villa La Angostura na sexta feira de manhã e cheios de coisas para fazer, resolver questões logísticas durante a prova, comprar os últimos equipamentos específicos para o frio e as pedras da região e ainda tivemos um tempo para treinar canoagem, trekking e mountain bike com o Fabian, grande argentino que nos deu dicas que seriam valiosas durante a prova! Valeu Fabian!

Na hora do Briefing aquele frio na barriga ao ver as longas pernadas de trekking, canoagem e mountain bike, tudo ainda só na imaginação, porque os mapas seriam entregues a cada passagem pelo acampamento central, e o primeiro era de canoagem, o que não nos dava muita clareza sobre o que esperar no trekking e na mountain bike.

Começamos a canoagem remando forte, contrariando as expectativas, já que nossa modalidade mais fraca era o remo. Saímos da água para a primeira transição depois de 9h de remo, ainda entre as 10 primeiras equipes, e começamos o trekking de 70 km quando já anoitecia nos arredores de La Angostura. Entramos na mata e com pouco tempo alcançamos a outra equipe brasileira Lagartixa, e com eles encaramos uma jornada de mais de 40 horas desafiadores, em que o frio, a fome e as difíceis decisões de navegação estiveram sempre presentes. Por fim a união das equipes foi fundamental para garantir nossa saída do trekking, aparentemente mais mortos que vivos, rumo a nova seção de canoagem. Estávamos então entre as 20 equipes no geral, de um total de 31 times que largaram.

Remamos e fizemos uma transição rápida par ao mountain bike, a 1ª parte era uma seção urbana em que socamos forte o pedal e depois uma parte mais longa rumo a maravilhosa Villa Traful, com um lago incrível e um clima espetacular. Fomos buscando posições e saímos para o trekking de 20km já melhores posicionados, agora andando entre os 15 primeiros. Voltamos do trekking e pegamos a última longa seção de bike para um bate e volta em uma igreja e depois voltamos quase non-stop até Villa Angostura, depois de mais de 30 horas que tínhamos passado pela última vez pelo acampamento central. Chegamos de volta em 9º no geral e 4º entre os quartetos masculinos, numa recuperação espetacular pela qual lutamos e fizemos uma força sobre humana. Chegamos todos no limite (verdade seja dita: todos menos o monstro Brou!) ao acampamento e nos aguardava uma surpresa: ao invés do que pensávamos, que faltava apenas a seção final de 40km de canoagem, tínhamos ainda um trekking de 50km que de alguma maneira esquecemos de notar no racebook (pelo mesmo problema passou a Lagartixa).

Mortos de cansados como estávamos, ainda assim vimos o trekking como oportunidade para bucar um lugar no pódio, já que agora estávamos a meras 5 horas da 1ª equipe masculina. Fizemos nossa transição mais rápida na prova e partimos pro trekking, chegando ao 1º PC (Cume O´Connor, mais de 1200 metros de desnível numa trilha de pedras) mantendo o mesmo tempo que tínhamos de diferença da equipe 3ª colocada, que era de 1 hora.

Descemos para o vale onde estaria a trilha para o próximo PC mas nesse momento ficou escuro e vários pequenos vales existentes dificultaram um monte nossa navegação, e ainda tínhamos o problema do sono, já que em nossa recuperação histórica tínhamos virtualmente abandonado o sono, tendo dormido até aquele momento umas 5 horas desde a largada, que já estava a mais de 100 horas atrás. Confusos, cansados e com frio, não conseguimos encontrar o caminho, mas como sabíamos que estávamos semi garantidos em 4º lugar, já que as equipes que estavam atrás da gente estavam muito longe (pelo rádio do PC no Pico O´Connors sabíamos que estávamos a mais de 6 horas na frente do 5º colocado) e com a iminência do horário limite do término da prova (eram 3h da manhã de sábado e a prova acabava ao meio dia), decidimos dar meia volta e descer uma trilha de 7 horas até o acampamento central, onde chegamos às 10h da manhã e fomos surpreendidos com a notícia de que um corte havia sido inventado e com isso tínhamos sido oficialmente desclassificados.

Sobre isso queria fazer um esclarecimento. No momento em que saímos do Acampamento para fazer o trekking, éramos a 9ª equipe no Geral. Ao invés de descansar para encarar os 50km de trekking, forçamos nossos corpos a ir na brutalidade para buscar um lugar no pódio. Arriscamos e no 1º erro real de navegação durante a prova, fomos brutalmente eliminados. A injustiça que se apresenta é a seguinte: o corte inventado pela organização para mais equipes terminarem a prova (se não tivessem feito o corte, talvez apenas 5 equipes terminariam a prova completa) nos colocou em um limbo em que apenas a nossa equipe saiu para o trekking de aproximadamente 24 horas com um limite de tempo apertado para completá-lo e as outras todas que dormiram, que estavam para trás tiveram a oportunidade de fazer um trekking bem mais curto e finalizar a prova.

Mas não passa nada. Saímos com a cabeça erguida e a convicção de que ficamos efetivamente em 4º no masculino e 9º no Geral, que foi a posição que saímos para o último trekking e pela qual lutamos durante uma semana inteira de esforços sobre humanos numa região belíssima mas também dura.

Tierra Viva: Uma expedição para gente grande

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