Relato da Equipe Kailash Brou Aventuras no Mundial Huairasinchi – Equador 2014

Correr uma final do Circuito Mundial de Corrida de Aventuras é um sonho para todo atleta deste esporte maluco e desafiador! Com este sonho na bagagem embarcamos de última hora para Quito, a capital do Equador.
A formação original da equipe Kailash Brou Aventuras não pode ir, então convidamos o Oreste Friederich, do sul do Brasil, para completar o já entrosado trio formado por mim (Zé Elias), Marianinha Pontes e Hélcio Terres. Sabíamos das dificuldades de conhecer um novo integrante de equipe durante uma prova tão desafiadora, mas o recebemos com a brutalidade e simpatia que caracterizaram nossa equipe ao longo destes anos no mundo da aventura.
Pra variar um pouco, nossa viagem não foi livre de sobressaltos, e com atrasos e cancelamentos de voôs, conseguimos fazer a checagem de equipamentos apenas 24h antes da largada!! Fomos a última equipe a fazê-lo.
Um dos grandes desafios desta final de mundial para todas as equipes seriam os trechos na altitude, desde a largada a 4000m acima do nível do mar e 2 outros trechos acima dos 3500m. Tínhamos planejado uma subida rápida ao vulcão Pichincha, mas com os atrasos de voô e conexões apenas eu e a Marianinha conseguimos fazer a caminhada na altitude. Deu pra curtir o visual ao redor de Quito e ter um primeiro contato com a famosa falta de ar que caracteriza a vida humana acima dos 3500m. Inusitado neste dia foi que encontramos uma excursão escolar de crianças de uns 7-8 anos subindo a montanha! Foi sensacional perceber como a cultura de montanha no Equador vem sendo formada desde a infância. Não foi por acaso que na largada umas 4 equipes equatorianas estavam entre os top10 da prova.

Conseguimos nos organizar em tempo recorde e logo entramos no período de máxima ansiedade pra chegar a hora da apresentação das equipes e logo o briefing técnico e a entrega dos 22 (!!!) mapas A3 na escala 1:50.000 que cobririam todos os 710km de percurso saindo dos Andes em direção à Amazônia, depois subindo outra vez os Andes para descer rumo ao Pacífico! A jornada prometia ser longa e dificil, mas estávamos preparados.
A Largada
Saindo em comboio às 5h da manhã de Quito, partimos em direção ao belíssimo vulcão Antisana, de onde partiriamos para o 1º trecho de trekking da prova, de 30km. Apesar de largada a 4000m, e logo de cara uma subida de 10km até os 4400m, conseguimos surpreendentemente nos manter entre as 10 primeiras equipes até começar os 20km de descida em direção à àrea de transição. No começo da descida conseguimos correr com as equipes líderes, mas depois o ritmo ficou muito forte e comecei a sentir o peso da largada. Reduzimos um pouco o ritmo e com um pequeno erro de orientação acabamos a seção em 21º lugar. Mais ou menos o que esperávamos, mas um pouco decepcionante depois de estar entre os 10 primeiros nas primeiras 2h de prova. Na AT, outra surpresa desagradável: o pneu da bike do Hélcio estava furado. Mesmo assim fizemos uma transição relâmpago de 18 minutos e partimos para um downhill de 67km. Só não esperávamos que fosse a maioria de asfalto!!

Por se tratar de uma prova sem apoio, em cada transição tínhamos que montar ou desmontar as bikes, pegar o que precisaríamos de equipamentos e alimentos pro próximo trecho e entregar as caixas nos caminhões da organização.

1ª trecho de bike – de 3200m a 1600m
Essa bike foi em grande parte uma longa descida de asfalto em um vale que se aprofundava cada vez mais e nos paredões víamos diversas cachoeiras muito lindas e imensas. No começo não rendemos muito bem ainda devido aos efeitos da altitude da largada, mas foi uma equipe colombiana nos passar que decidimos partir pro contra-ataque e acabamos subindo muito o ritmo que estávamos indo. Tínhamos feito os primeiros 50km em cerca de 3h e estávamos satisfeitos com nosso desempenho quando passamos por um PC, atravessamos uma ponte pênsil e entramos numa trilha que batizamos como o “Vietnam” dessa bike. Neste trecho ficou claro que uma tradicional de nossas frases fez mais sentido que nunca: se está ruim pra gente, imagina pros outros. No 1º empurra bike com lama da prova, conseguimos ultrapassar umas 4 equipes que lutavam contra o ambiente hostil. 3,6km depois, e mais de 1h neste trecho desgastante, emergimos numa estradinha que logo atravessou um rio (onde lavamos providencialmente nossas bikes) e pegamos uma última subida até El Chaco, cidade onde ficava a 2ª Área de Transição, deixando as bikes pra seguir pra um longo trekking subindo um vale.

Esta transição foi sensacional, porque além de termos chegado antes do tempo previsto (fizemos em 9h essa 1ª parte da prova e tínhamos planejado 10h), encontramos uma grande variedade de comidas oferecidas por um dos patrocinadores da prova. Mais uma vez conseguimos fazer nossa transição em menos de 30 minutos e saímos felizes para a 1ª noite da prova.
2º Trekking: Da lama ao caos
O trekking começou tranquilo, estávamos em 17º e conseguíamos render bem na estradinha subindo o vale. Com pouco tempo encostamos na equipe Yoga Slackers, dos EUA, que eu tinha conhecido no Canadá durante o Raid International Gaspésie, e trocamos umas idéias rápidas e eles acabaram acelerando e nos deixando pra trás. Atravessamos uma ponte e aí começou o verdadeiro desafio do trecho. A trilha foi boa até a 1ª seção de cordas (atravessar uma ponte pênsil em más condições seguindo uma linha de vida) mas depois a chuva que ameaçava acabou caindo forte e nos vimos imersos num mundo de mata fechada e lama, como uma discreta trilha no meio do caminho. Seguimos lentamente as semi trilhas, que iam e voltavam ao leito do rio, proporcionando momentos de escalada um pouco tensos nas raízes e pedras escorregadios.

A noite inteira pelejamos nestas trilhas, e quando o dia enfim nasceu estávamos de novo vendo sinais de civilização, chegando a uma estradinha (ainda lamacenta, mas afinal uma estradinha). Demos as dificuldades por terminadas mas uma chuva intensa nos pegou de surpresa e quase coloca os 4 num estado de hipotermia. Paramos numa galpão abandonado para trocar de roupas e depois seguimos o resto do trecho ate a próxima transição, mais uns 10km vale acima no vilarejo de Oyacachi. Depois da desmoralizante noite que tínhamos passado, achamos que mereciamos um descanso maior e decidimos ficar 2h das 8h obrigatórias de sono nesta transição.
Como cheguei meio pilhado, organizei minhas coisas e não consegui dormir muito, mas nos alimentamos bem e nos preparamos para a próxima seção, uma bike de 144km.

2ª bike: de Oyacachi a San Jose de Minas
Esta bike começava em uma longa subida nos Andes, com paisagens e altitude de tirar o fôlego, seguido logicamente de um correspondete downhill sensacional numa típica estrada de rípio andino.

Fizemos uma bike excelente no começo, trocando posições com algumas equipes, alcançando outras que estavam meio perdidas e continuamos entre as 20 primeiras. Logo a noite caiu e o frio e a fome começaram a nos consumir e depois de um PC virtual, decidimos tentar comer alguma coisa quente. O problema é que os nomes de vilarejos que apareciam nos mapas normalmente apareciam na realidade apenas como algumas casas, nada de bares ou padarias, que eram sempre nossos sonhos de consumo!
Paramos em uma casa pra perguntar onde poderiamos comer algo e nos disseram que ali mesmo podiam fazer um arroz com ovo e coca cola! Sensacional. Comemos abrigados do frio e decidimos pedir pra descansar por uma hora por ali! Aí tivemos nossa 1ª prova da grande hospitalidade do povo simples equatoriano: não só poderiamos ficar ali durante uma hora, como nossos anfitriões nos trouxeram colchões e cobertores!! Pensei que tudo isso por apenas uma hora era uma tortura, mas aceitamos com os corações muito felizes e uma hora depois, aquecidos, montamos outra vez nas bikes e entramos na gélida noite andina. Apesar de pequenos problemas de orientação e dessa parada pra descansar, no próximo PC nos informaram que estávamos em 17º, melhor do que quando começamos a bike. Empolgados com a notícia, seguimos pedalando forte até que ficamos perdidos por 4h tentando achar uma trilha impossível para sair de um povoado que parecia ter surgido de um faroeste maluco.

Pedalamos por cada rua de El Quinche, entramos em pastos, descemos trilhas fantasmas até a beira de rios barulhentos e só quando achávamos que estávamos presos pra sempre finalmente demos com a trilha (que aliás era um downhill sensacional de single track de 6km na beira de um precipicio) e conseguimos prosseguir.
Mais adiante neste trecho atravessamos a linha equatorial e seguimos rumo norte ao amanhecer do 3º dia de prova. Seguimos forte e sem erros mas a partir do meio da manhã começamos a ficar preocupados com o horário de corte (pensamos erradamente que era as 14h mas era na verdade às 17h – depois a organização extendeu até a meia noite) e começamos a imprimir um ritmo alucinante nos pedais. A blocagem da bike da Marianinha quebrou neste ponto, e o Hélcio conseguiu consertar com uns enforca gatos (???) e faltando 5km de subidas fortes até a transição tínhamos 20min. Ultrapassamos na brutalidade uma equipe equatoriana que nos olhou como loucos e chegamos às 14h05 na AT. Respiramos fundo e quando nos disseram que o corte (Reenganche em espanhol) era as 17h nos jogamos no chão e nos preparamos pra uma transição de 2h, descontando este tempo nas nossas horas de sono obrigatórias.
3º trekking: de San Jose De Minas a Meridiano: crista maluca e descida de lama

Cansado de tanto olhar pros mapas nos 3 dias anteriores, passei a responsa da navegação pro Oreste (cada equipe só tinha disponível um jogo de mapas). Começamos bem, cortando uma estradinha por encostas íngremes e depois do 1º PC do trekking começamos a subir uma encosta longa que nos levaria de 2000m a 3600m. O sono começava a cobrar sua cota em nossos corpos e quando a chuva nos pegou a 3200m achamos que era hora de pararmos para um reaquecimento. Mais uma vez a hospitalidade equatoriana foi sensacional. Paramos numa casinha no meio do nada às 22h de uma noite chuvosa e pedimos pra ficar um pouco no celeiro. Nos deram permissão e ainda por cima trouxeram lenha pra fazermos uma fogueira e um delicioso (depois soubemos que era típico da região) chá de canela com especiarias. Tiramos todas as roupas molhadas e nos aquecemos suficientemente pra seguir montanha acima.

Quando voltamos a andar, logo o mapa não estava 100% atualizado e preciso e cometemos nosso maior erro de navegação durante a prova. Seguimos sentido nordeste por uma estrada por umas boas 2h, quando tínhamos que estar a noroeste-oeste em direção ao PC14. Foi um momento dificil pra equipe. Além de ter que lidar com nosso erro, o frio estava intenso e a visibilidade quase nula. Somando-se a isso nosso estado de semi-zumbis, foi uma dádiva quando nasceu o 4º dia da prova e finalmente nos reencontramos e reconciliamos.
Quando chegamos ao PC14, arrasados pelas 4h perdidas, encontramos todo o pelotão contra quem estávamos competindo nos últimos dias, perdidos procurando o PC14. Juntamos com essas equipes e chegamos juntos no PC14, e depois dele era uma descida sensacional por trilhas de traficantes de ouro do século XVII-XVIII e aproveitando que estávamos renovados na disputa, descemos alucinados por 9,5km de trilhas até o povoado de Buenos Aires. Dali seguimos mais 8km de estradinhas até Meridiano, onde a AT estava dentro de uma igreja e quase todas as equipes tiveram que pagar 4h de penalização por um trecho proibido durante a 2ª seção de trekking. Aproveitamos pra descansar um pouco e nos alimentar antes de encarar os 166km da próxima e decisiva bike.
3ª bike: 166km de Meridiano a Independiente
Ouvimos muitos atletas depois da prova dizendo que este tinha sido um trecho muito duro de bike, mas acho que porque o fizemos noite e madrugada a dentro não ficou essa impressão pra gente. Parecia realmente um pedal interminável, com um vertical bem diversificado quase no fim (foi em Salto del Tigre: tinhamos que pular uns 3 metros pra uma piscina natural, depois uma tirolesa sobre uma queda d´agua impressionante e ainda uma falsa baiana a mais de 50m de altura). O final da bike sim foi extremamente sofrido, numa trilha na beira de um rio que subia um monte pra depois descer tudo em 5km de muitas pedras. Chegamos semi aniquilados na transição. Eram 15h. Tínhamos 3h30 pra caminhar por 11km com toda a tralha da canoagem (remos, coletes, mala com equipamentos e comidas), isso porque queriamos de todas as maneiras entrar no rio antes do dark zone, que era 18h30.

1ª Canoagem: rio sensacional e divertido
A caminhada de 11km foi interminável, sob o sol mais forte que tínhamos enfrentado até então, e forçamos o ritmo pra tentar entrar o mais cedo possível no rio. Chegamos às 17h, mas com o briefing demorado e individualizado pelo qual tivemos que passar antes de entrar na agua, entramos às 17h30. Tínhamos 1h antes de ter que sair do rio e montar acampamento.
Pra explicar: fizemos toda essa força pra entrar no rio porque queriamos nos afastar do pelotão gigante que nos alcançaria caso ficassemos parados por 11h antes de entrar na água. Todo esforço que tínhamos feito até então seria anulado pelo tempo parado.

Por isso remamos 50min, nos adaptando aos caiaques e ao rio e paramos pra acampar. Apesar dos mosquitos, foi um momento massa de “Largados e Pelados”. Fizemos fogueira, protegemos a barraca da chuva e tratamos de descansar e comer o máximo que podíamos. No outro dia entramos animados pra encarar as corredeiras do rio, e apesar de algumas viradas inevitáveis, remamos bem e terminamos o trecho com 7h20. Quando estávamos saindo da água vimos a equipe francesa chegando numa curva do rio. Levamos os caiaques e equipamentos 1km pela trilha e fizemos uma transição rápida de menos de meia hora pra um pedal de 42km que nos levaria por grandes subidas num sol de matar!
Bike Final: rumo a Cube
Saimos meio desesperados da transição pro pedal mais curto da prova (42km). Apesar de pouca navegação, era muito duro fisicamente, sobretudo devido ao sol muito forte. Paramos pra tomar uma coca-cola e depois pra jogar alguns baldes gigantes de água na cabeça. Pedalamos fortes e consistentes e chegamos na transição com 3h10 de pedal. Fizemos muita força porque como passamos pela darkzone, sabiamos que tinhamos ainda 2h de sono obrigatório a mais que todas as equipes que vinham atrás da gente. Ficamos ali por 4h nos alimentando, arrumando já as caixas de bike que partiriam pra chegada, lavamos algumas roupas e descansamos. E nos restava torcer pra poucas equipes chegarem antes da nossa partida.
4º Trekking: Lama total por inacreditáveis 15h
Apesar de ficarmos 4h parados, apenas 2 equipes sairam pro trekking antes de nós termos autorização pra sair. Isso foi reconfortante pra gente, porque sabíamos que estávamos num ritmo físico forte o suficiente pra nos fazer ganhar algumas posições neste final de prova, que era nosso planjeado desde o final. Entramos pro trekking em 18º, e durante 12km caminhamos e trotamos numa estradinha sob a luz fraca da primeira lua que víamos desde que a prova tinha começado. Logo assinamos um PC e entramos na reserva indígena biológica Bilsa. Era um trekking pouco comum, já que ao invés de mapas navegamos com um GPS (o que não evitou erros de diversas equipes) por ser uma região não mapeada do Equador. Coisas dos nossos tristes trópicos.

Depois deste PC o trecho ficou realmente dificil e com o GPS podíamos acompanhar nossa lamentável média de velocidade: 2km/h. E isso ainda com 30km de trekking pela frente. Encostamos e passamos a equipe francesa LaFuma que tinha saído quase 2h antes da gente no trekking e depois num rio bem confuso passamos também a equipe equatoriana-neo zelandeza que tinha saido 3h30 na nossa frente. Apesar de desmoralizados e com muitas dores nos pés, estávamos andando forte aparentemente. A cabeça focada foi muito importante neste momento, o mais dificil psicologicamente até então, porque andávamos e andávamos e não pareciamos sair do lugar. Foram 13 horas de lama até os joelhos, dando um passo, perdendo o tênis, ficando com o pé agarrado. Enfim foi o pior trecho de trekking (??) que já fiz na minha vida.

Como disse o Nathan da Seagate em seu relato (e que servirá de agora em diante pra mim como um mantra): por interminável, chato e duro que seja, qualquer pernada de qualquer corrida de aventura em algum momento termina. E assim emergimos vivos, semi aniquilados e prontos pra canoagem final às 12h40 do sábado em um surpreendente 14º lugar.
Canoagem fnal: punição de 4h, maré contra, alucinações e puxa caiaque na lama!
Ficamos muito felizes de estarmos em 14º lugar na prova, nossa melhor posição até então, e tentamos agilizar o máximo que podíamos a transição final pra aproveitar o resto de maré vazante e evitar que outras equipes aparecessem. Mas tínhamos que pagar 4h de penalização (esquecemos de levar o GPS e a barraca em um trecho de bike: na verdade não entendemos direito o briefing e pensamos que não teríamos que levar)! Frustração, nervosismo mas paciência! Vamos nos alimentar e descansar porque o trecho final prometia ser brutal! Ficamos ali no sol durante 4h arrumando as coisas, comendo e conversando e surpreendentemente apenas 3 equipes chegaram do trekking maluco que acabáramos de sair. Tínhamos afinal feito o trecho bem rapidamente, comparando com a galera que vinha na nossa perseguição.
Finalmente às 16h40 entramos na água na 17ª posição pelo canal quase seco, tendo que escolher por onde remar pra não ter que empurrar o caiaque. Logo escureceu e estávamos remando muito forte, nosso melhor ritmo até então, por uma baía cheia de ilhas e braços, mas encontramos sem muitas dificuldades o primeiro PC. Nisso já buscamos 2 equipes que tinham saído antes da gente. O final de prova parecia nosso mesmo.
Depois do PC tinha uma parte delicada de navegação em que tínhamos que evitar de todas as maneiras remar noroeste sob o risco de acabarmos em alto mar. A maré vinha contra com força, o sono nos deixava muito lentos e com problemas de entendimento, mas fomos em frente cantando e tentando nos manter acordados. Fizemos uma parada pra descansar e logo começamos o trecho final, de apenas 8km num canal paralelo ao mar.
Já não tínhamos mais muita noção de quem estava na nossa frente ou atrás, mas seguimos em frente e numa curva do canal encontramos os franceses da LaFuma dormindo no caiaque. Falei com a galera que não tinha a menor intenção de disputar com eles. Acabamos escolhendo “braços” diferentes do canal pra avançar e os perdemos de vista. Quando chegamos no que parecia a reta final dessa canoagem sem fim nos deparamos com um trecho de 1km mais ou menos sem água. Pura lama outra vez, atolados até as coxas empurramos os caiaques frustrados e arrasados na direção das luzes onde estava a saída da canoagem. Alucinando, literalmente caindo na lama de sono finalmente chegamos às 5h30 da manhã e tínhamos pela frente 4km de asfalto até a chegada.
Foi uma caminhada cômica (e por pouco trágica) porque íamos andando com os olhos fechados, e quando acordávamos assustados estávamos saindo pelo acostamento da estrada. Várias vezes flagramos um ao outro nessa situação e demos muita risada. Até que, parecendo impossível, surgiu a nossa frente o pórtico de chegada. Com 165h, uma semana inteira percorrendo os 710km mais duros da minha vida, chegamos aliviados e surpresos com a noticia que o Togumi nos deu de que éramos a 15ª equipe a chegar!

Foi uma semana incrivelmente dura e que colocou a prova nossas condições físicas e mentais, além das habilidades técnicas e logísticas. Fazendo um balanço de tudo que fizemos foi uma das experiências mais incríveis que passamos, explorando a natureza selvagem do Equador como uma equipe determinada a fazer tudo para chegar ao final da melhor maneira possível.
Só tenho a agradecer aos meus companheiros de equipe, em primeiro lugar, porque sem eles nem uma ínfima parte deste sonho teria se tornado realidade. Valeu demais Marianinha (a mais bruta), Hélcio (mais um irmão que ganhei nesse fantástico mundo das aventuras) e Oreste da Montanha, surpreendentemente forte e constante nessa jornada pelo desconhecido.
Agradecemos também a ARWS Pantanal 2015 pela oportunidade de nos convidar pra prova e à Kailash por seguir acreditando em nossos sonhos!