Mais uma aventura, desta vez realmente rumo ao desconhecido

chegada amolar

A equipe Brou Aventuras, com o apoio da Kailash, participou pela 2a vez consecutiva da Final do Campeonato Mundial de Corridas de Aventura, realizada durante 7 dias ininterruptos no Pantanal Mato-Grossense, Brasil.

Preparativos de equipamentos, viagens longas e finalmente a equipe se encontra reunida em Corumbá, Mato Grosso do Sul, portal de entrada para o Pantanal e sede do evento. Isso era quinta de manhã. O calor era absurdo e parecia impedir a vida humana mesmo na sombra. A perspectiva de encarar 7 dias sem muita sombra nesse ambiente hostil não parecia a mais animadora para os atletas de diversos países do mundo que se reuniram ali para uma dura disputa pela vitória e pela sobrevivência.

Logo checamos os equipamentos, kits de primeiros socorros, fizemos os testes de canoagem, natação e vertical e estávamos liberados para preparar as caixas A, B e C que encontraríamos com comidas e roupas/equipamentos ao longo da prova. Cada caixa podia pesar 32 kg no máximo e delas dependiam em grande parte o sucesso de nossas estratégias e logística durante nossos programados 7 dias de explorações no Pantanal.

 

Pré Largada: navios da marinha com ar condicionado!

 

Já sabíamos que passaríamos a noite anterior à largada nos navios da Marinha brasileira. Às 17h nos entregaram os mapas e embarcamos para a noite toda subindo o rio Paraguai em 3 embarcações da Marinha! Qual não foi a surpresa de todos quando vimos que as cabines em que dormiriamos tinham até ar condicionado! Puro luxo e ostentação antes da prova.

P1060188

 

Chegamos ao amanhecer ao local da largada: a Escola Jatobazinho, do projeto Acaia Pantanal (http://www.acaia.org.br/acaia-pantanal/programas/escola-jatobazinho/http://www.acaia.org.br/acaia-pantanal/programas/escola-jatobazinho/)

Foi emocionante conhecer este projeto social tocado pela Regina e a empolgação das crianças em nos receber foi uma energia incrível para todos. Depois de conhecermos a Escola e um pouco sobre o projeto, nos ofereceram um almoço banquete e agora era esperar 13h para largar subindo o rio Paraguai nos primeiros 50km de canoagem da prova.

 

Largada: 50km de canoagem sob um sol escaldante e avassalador

 

Alinhamos as 32 equipes na direção norte, pra encarar a subida do rio Paraguai remando contra a correnteza! Contagem regressiva e depois de meses de preparação, ansiedade, sofrimento, angústia: tudo se dissipa na hora em que começamos verdadeiramente a corrida.

 

Ritmo alucinante de todos, ao longe já víamos a equipe favorita da Nova Zelândia, Seagate, indo embora rio acima num ritmo muito mais forte que os outros.

Nossa estratégia de largada (que mais tarde se provou errada) era colocar os dois remadores mais fortes (Juninho e Naru) no caiaque da frente puxando com o elástico o caiaque em que íamos eu e a Marizinha. Deu certo por umas 3 horas, até que o calor extremo e a força feita pros caiaques andarem juntos cobraram um elevado preço e nosso ritmo começou a cair muito, e começamos a ser ultrapassados.

Ao nosso lado, muitas equipes também começaram a sofrer e o ritmo geral caiu muito, pelo menos até que a noite começou a cair e o calor deu uma pequena moderada.

No fim da tarde abandonamos o rio Paraguai depois de quase 5h e começamos a subida de um afluente. O pôr do sol foi o primeiro de muitos inesquecíveis que veríamos nos próximos dias.

Com a noite caída, começamos a remar com a Competition Aroeira, que seria nossa parceira durante quase toda a prova! Marcante durante essa primeira noite foi a lua crescente vermelha que observava nosso lento avanço, os primeiros encontros com os jacarés, e a sensação de estar remando em um rio de águas aquecidas! Impressionante e ruim ao mesmo tempo, porque fazia muito tempo já que vínhamos usando essa água como fonte direta de hidratação, e bebê-la quente não ajudava muito nosso psicológico.

Depois de 10h30, contornamos um braço de areia do lago em que agora nos encontrávamos, e avistamos a tão desejada luz do PC indicando o fim da canoagem.

 

1o Trekking – 27km : Rumo ao PackRaft

 

Saindo da canoagem em 26o lugar, meio decepcionados mas cientes de que íamos melhorar ao longo da prova, fizemos uma transição rápida e já ultrapassamos umas 3 equipes ali mesmo.

Noite quente numa estradinha de fazenda, e chegamos no próximo PC onde os moradores prepararam um jantar espetacular pros atletas. Apesar da tentação de ficar por ali comendo e bebendo deliciosamente, ficamos só o tempo suficiente pra comer e pegar água. Mais umas 3 equipes ficaram pra trás nesse ponto.

 

Subimos uma serra numa trilha super escarpada e amanhecemos pegando o PC da antena. Ai começou o 1o de muitos rasga matos da prova. Descemos o leito de um riozinho seco que em algum momento começou a ter água e já estava me sentindo na Serra do Cipó bebendo água fresca direto das cachoeirinhas do percurso. Um pouco mais de rasga mato procurando trilhas e chegamos à beira do lago onde começaríamos o trecho de Pack Raft. Estávamos em 21o lugar.

 

1o Pack Rafting – 36km: progressão lenta, rasga mato e vento contrário

Fizemos uma transição bem tranquila, para comer bem e beber o que tínhamos na Caixa A e partir para o próximo trecho que prometia durar mais de 24h.

Entramos na água e começamos a remar lentamente cada um no seu pack raft individual. Para abrir um parênteses: cada equipe dispunha de um tipo diferente de pack raft. Alguns que custaram 1500 euros e andavam a quase 6km/h e os nossos que custaram 150 dólares mas que faziam 2km/h. Na opinião de todos os atletas com quem conversei, muito desigual! Mas vamos lá. Tínhamos que remar 28km e com isso na cabeça partimos às 8h30 da manhã de domingo. Com 2km de remadas, decidimos tentar um rasga mato (facões em ação pela primeira vez de muitas durante a prova!) para evitar 10km de canoagem. Encaramos um trecho de 500m de alagados, espinhos, mato com a equipe suiça xxx, conhecida pra nós a partir desse momento como os “calças vermelhas” rsrs. 2h depois emergimos na beira do rio outra vez, e para confirmar que tinha dado certo nossa estratégia, passavam por ali naquele exato momento as equipes Nossa Vida e Enigma/Papaventuras, que tinham entrado na água mais de 1h antes da gente. Enchemos de novo os “rafts” e recomeçamos a remar, mas a galera da equipe começou a ficar sonolenta, o calor foi pegando forte de novo e decidimos parar meia hora pra dormir numa das raras sombra na beira do rio.

Acordamos e continuamos remando desanimados, lentamente progredindo enquanto víamos as equipes com os “rafts” mais rápidos que tínhamos com tanto custo ultrapassado nas transições e no trekkings passarem pela gente voando. Enfim era o que tínhamos e deveríamos lutar o máximo que pudéssemos com as armas que nos foi possível obter!

No fim da tarde finalmente atingimos o lago Mandiore (divisa do Brasil com a Bolívia) e avistamos a Morraria do Mandiore, fim do Pack Raft e começo do trekking que nos levaria à próxima transição.

Entre avistar a serra e chegar nela gastamos umas 5h, sendo que na última tivemos que lutar ferozmente e com todas as forças das nossas castigadas mãos nos remos para enfrentar uma ventania que arrastava nossos barcos e não nos deixava chegar na margem. Muito sofrimento e sensação de impotência.

Por fim conseguimos sair do lago e encontramos na margem uma galera que estava por ali esperando outras equipes pra juntar forças e encarar o longo rasga mato morro acima, em busca do PC7. Estávamos nós, a Nossa Vida, a Competition Aroeira, a Ekos Pinheiro Selva. Na hora de subir a serra a Nossa Vida decidiu encarar a parada sem ajuda e seguimos as outras equipes rasgando mato morro acima. Na saída do lago, alguns vacilaram e saíram sem água, o que quase custou muito caro pra todo mundo. Eu tinha enchido duas garrafinhas de água e fui compartilhando com a galera ao longo da madrugada, mas em um momento tudo acabou e o drama começou.

Depois de 4h subindo, demos com um paredão intransponível. Decidimos descer um pouco e ver se achávamos outra linha de subida e o Juninho deu a excelente e providencial idéia de dormirmos todos durante a hora que faltava pra amanhecer e tentaríamos achar o caminho de novo sob a luz do dia. A esta altura todos já estávamos sem água, eu já vinha chupando a camisa para tentar extrair algum líquido mas quando recomeçamos a subir, tive vontade de urinar e por precaução fiz na garrafinha para uma hora em que a necessidade se mostrasse grande demais.

 

 

Atingimos o PC7 ao amanhecer, apenas 40 minutos depois de reiniciarmos a marcha morro acima. A noticia boa veio seguida de que  o próximo ponto de água seria um desvio de 1h30 que ninguém estava disposto a fazer ou seguir rumo à transição, cerca de 4h dali. Foi arriscado mas seguimos em frente. Em algum momento da descida da morraria, encontramos uma cachoeirinha com água deliciosa, necessária e bem vinda! Dai pra frente apesar de alguns problemas de orientação achamos finalmente a estradinha que nos levaria pra fazenda na beira do rio Paraguai onde ficava a transição!

2o Trekking – 68km: Atravessando a Serra do Amolar

Era segunda feira de tarde, já com mais de 48h de prova e tínhamos avançado muito lentamente até então, cerca de 120km. E tínhamos pela frente o maior trekking da prova, de 68km. A travessia inédita da Serra do Amolar seria um dos grandes feitos dos atletas deste mundial, estávamos ansiosos pra encarar essa aventura.

 

 

Descansamos um pouco no AT para evitar a hora mais quente do dia (entre 15h e 17h) e saimos ao entardecer. Mais uma vez tínhamos a companhia da Competition Aroeira e da Enigma/PapaVenturas. Seguimos pela belíssima paisagem de um vale que parecia demais com as savanas africanas, andando juntos por precaução porque a organização tinha avisado que este era o local com maior incidência de onças de toda a região que percorremos.

Encontramos um matuto que nos levou a um melhor caminho pra subir a serra, e conseguimos chegar bem rápido no PC 10, com uma noite estrelada e um vento refrescante pela primeira vez na prova. Passamos a noite toda no alto da serra, seguindo no azimute e o rastro deixado na vegetação pelas equipes que passaram primeiro no trecho. Às 5h, ficamos meio perdidos e decidimos descansar um pouco pra esperar que a luz do dia iluminasse nossos caminhos. Quando o sol raiou estávamos em meio a um ambiente espetacular. Morros e mais morros a perder de vista, realmente inseridos em uma natureza selvagem que se mostrava cada vez mais dura de ser superada. Avistamos finalmente ao longe o Pico onde deveria ser o PC11, nosso próximo objetivo, e começamos a delicada tarefa de ler o terreno nas encostas escarpadas e íngremes da Serra do Amolar. Nesse meio tempo o dia ficou mais uma vez muito quente, e a desidratação recomeçou a rondar nosso grupo. Dois atletas (Diogo Rehder da Enigma e Igor da Competition) começaram a se sentir mal na última escalada e dividimos os esforços (e goles d´água) para chegar com segurança ao cume. Chegando lá, e ainda com a perspectiva longa do trekking pela frente, decidimos nos separar e avançamos num ritmo um pouco mais rápido. Na descida encontramos finalmente água que bebemo sofregamente e nos alimentamos para seguir fortes.

 

Encontramos nesse trecho com algumas equipes que consideramos de ponta (PeakPerformance da Suécia, Selva/Terra de Gigantes, Quasar Lontra, Yoga Slackers dos EUA) e sentimos que a situação estava realmente ruim para todos.

Pegamos o PC12, descemos uma encosta extremamente delicada da Serra, atingimos o vale do rio e após mais algumas facãozadas achamos uma estradinha que levava ao PC13, transição para canoagem de novo na beira do rio Paraguai.

 

2a Canoagem: 65km descendo o rio Paraguai de madrugada

Chegamos aliviados à transição depois de 27h de marcha pela Serra do Amolar.  Fui assinar a planilha e me surpreendi com nossa 12a posição! Inacreditável e realmente animador! Jantamos na fazenda (arroz com feijão e ovo) e nos preparamos pra uma hora de sono mas os mosquitos nos impediram, e acabamos entrando  no rio com sono mesmo. Remamos eu e Naru na frente e puxando o Juninho e Marizinha que dormiram um pouco. Com a corrente a favor, estávamos indo até rápido. Com 2 PC´s nesse trecho, e nada de luz elétrica, tivemos que ficar muito atentos para não passar do ponto. Assim que chegamos à Serra Negra, ao amanhecer, pedimos a um morador pra dormirmos na sua casa por 2h. Recuperamos as energias, tomamos um café com o dono do lugar e partimos de novo pra canoagem. Mais 4h e chegamos na transição, mesmo tendo remado lentamente ainda encontramos de novo com os japoneses saindo pro trekking, sinal de que estávamos todos no mesmo ritmo lento neste ponto da prova.

3o trekking – 49km: nos campos alagados do “verdadeiro” Pantanal

Querer não queríamos, mas ao meio dia da quarta feira (quase 96h de prova) começamos este trecho que prometia ser o mais dificil da prova até então. Eram 49km de áreas alagadas, com esparsos trechos secos, sem nada para ajudar na orientação a não ser o azimute e um suposto caminho de bois que deveríamos ser capazes de achar debaixo d´agua.

 

Junte-se a isso milhares de jacarés, arraias, agressivos porcos do mato e imensas pegadas de onça e imagine nossa situação nas 29h que duraram essa jornada!

Caiu a tarde nesse 1o dia e o pôr do sol quase nos fez chorar. Caminhar sobre essas águas transparentes, cheias de peixe e vida, foi a parte mais emocionante de toda a corrida. Ao cair a noite encontramos de novo com a Competition Aroeira, e depois com a Enigma Papaventuras e com os japoneses. Fomos avançando lentamente, procurando caminhos, atravessando imensas áreas alagadas, até que não pudemos mais e decidimos dormir um pouco numa fazenda em que vimos sinais de vida mas após muito chamar ninguém apareceu. Mesmo assim dormimos ali e na manhã seguinte os donos da casa apareceram e fizeram um belo arroz carreteiro como café da manhã pra galera. Comemos muitas mangas e saimos pra encarar o restante do trecho.

Mais alagados, mais calor, de repente ouvimos muito fortemente um rugido da onça! Apavorados e emocionados nos juntamos para segurança. Seguimos e seguimos, o dia ia dando sinais de que acabava e pela primeira vez na prova estávamos perdidos. Avançamos numa cerca sentido sul que era uma possível referência no mapa mas ficávamos com a impressão de estarmos entrando em áreas ainda mais remotas. Nossa salvação foram 2 aviões que vimos pousando e decolando e imaginando ser gente da organização nos deu um rumo a seguir. Encontramos de novo as outras equipes brasileiras e foi com alívio que nos últimos instantes da quinta feira chegamos ao AT!

Ali nos informaram que apenas 5 equipes continuavam com o percurso completo e que todas as outras estavam sendo transportadas de avião até o PC 20 para terminar os 220km de bike até o fim da prova.

Aproveitamos bem a longa noite de sono usando como colchão os pack rafts e na manhã seguinte, chuvosa, esperamos nossa vez de pegaro avião. Só às 14h30 sobrevoamos finalmente o trecho que deveríamos ter cruzado com os pack rafts e agradecemos por não ter que encarar aquele desafio que parecia muito acima de nossas capacidades.

Bike Final: 220km de areia, água, jacarés e estradões sem fim. Rasga mato no final

Sexta feira, quase uma semana depois de começarmos a prova, finalmente encontramos pela 1a vez com nossas bikes!

O trecho começou razoável, com alguma lama. Depois vieram longos trechos alagados, onde a Marizinha literalmente atropelou um jacaré desavisado que estava em seu caminho, mas nada grave aconteceu. Continuamos trocando posições com os japoneses, com uns tchecos, e com os brasileiros que encontramos mais uma vez.

Numa fazenda apareceram os suecos que vinham destruídos no percurso completo em 2o lugar. Após o PC21 chegamos no que apelidamos de “DarkZone” da balsa. Várias equipes estavam paradas ali porque a balsa pra atravessar o rio Paraguai ficava desativada entre 22h e 06h da manhã.

Quando finalmente nos atravessaram, pude ver o quanto a galera era bruta mesmo. Um pelotão maluco se formou com todos os atletas e durou por 30km de plano até a subida da serra, quando finalmente os ataques foram efetivos e a galera se separou. Ficamos numa posição intermediária nessa serra, fazendo muita força até o colo que a a atravessava e do outro lado mais 20km de encrencas até finalmente chegar em Ladário para os 5km finais de canoagem.

Por fim, no sábado às 14h, 145 horas depois de começarmos essa loucura, e tendo percorrido cerca de 550km chegamos de novo a Corumbá!

Foi uma semana intensa, em que cada trecho exigiu ao máximo nossa força física, técnica e principalmente cabeça para superar a lentidão do nosso progresso.

Gostaria de agradecer primeiro aos incríveis companheiros de equipe: meus irmãos Juninho e Marizinha e ao Naru, grande força mental nos momentos decisivos e navegação impressionante! E também à galera da nossa co-equipe Competition Aroeira, com quem fizemos uns 80% da prova juntos e que foram fundamentais para seguirmos nessa jornada!