Disputas acirradas como nunca em lugares espetaculares da Gaspésie (Canadá)

Mais uma viagem internacional para competir com meu irmão, Brou Bruto. Dólar em alta, dificuldades financeiras pra todo lado, mas vamos lá! Embarque novamente rumo ao Canadá, para disputar o Raid Internacional Gaspésie pela 2ª vez consecutiva.

Mais uma vez toda a estrutura da prova estava montada em Carleton-Sur-Mer, charmosa cidade banhada pelas águas da Baie des Chaleurs (Baía dos Calores) e com o paredão do Maciço do Mont Saint-Joseph atrás. Com muitos riozinhos de águas gélidas e transparentes, parece difícil encontrar região mais apropriado para a prática de esportes de aventura.

O Raid International Gaspésie (RIG2015) surgiu em 2014 e uma de suas grandes marcas é a grande presença de equipes internacionais. Este ano nada menos que 12 nacionalidades disputaram acirradamente os títulos em todas as categorias, numa prova com ritmo alucinante em que cada erro ou problema significava perder 4 ou 5 posições em questões de minutos.

Disputada em 4 etapas e várias modalidades (Corrida em Trilhas, Mountain Bike, Canoagem, Natação, Rapel, Tirolesa e Orientação), a cada noite todos os atletas são obrigados a acampar em lugares escolhidos a dedo pela organização, tanto pela beleza quanto pela estrutura que eles criam em ambiente selvagens. Esses acampamentos são um dos grandes destaques do evento!

Outra coisa muito legal é a presença e energia contagiante dos Staffs da prova e do público que a todo momento e nos lugares mais inusitados estão lá com palavras de incentivo e grandes sorrisos que nos estimulam a fazer ainda mais força.

O RIG2015 teve desde o início um ritmo muito forte, mais forte que qualquer outra competição multi-esportiva da qual já participei. Sofri um bom bocado a cada início de dia até que o corpo se ajustasse às injúrias que eu cometia contra ele e começasse a dar as respostas que eu esperava.

O Prólogo

A Largada do Prólogo foi no pequeno Farol na entrada da cidade, em uma corrida de 2km pela praia que mais pareceram 10km. Para aumentar o sofrimento, saíamos ainda de bike pela areia e cascalhos da praia por um tempo até que subíamos uma falésia no bom e velho empurra bike e aí começamos a primeira das muitas seções divertidas de Mountain Bike de verdade, com singles alucinantes e divertidos. Transição pra Trekking e a escalada abrupta do Mont Saint-Joseph (570m em menos de 3km) nos deixou sem fôlego. Lá no alto a recompensa do visual sem fim da Baía e uma seção de SlackLine meio apavorante mas rapidamente vencida e depois um downhill inesquecível de bike nos levou até um riozinho onde teríamos várias surpresas. Um rapel numa cachoeira com volume enorme de água, uma tirolesa atravessando o cânion, um PC debaixo das águas geladas e pra fechar a fatura um toboágua estilo Beach Park só que numa represa de concreto. Hesitei uns bons 2 segundos e depois cai na água com grande emoção. Mais um trecho de bike, salto de 3 metros no mar, natação e chegada! Acreditem, tudo isso aconteceu em menos de 3 horas.

No fim do Prólogo chegamos em 2º entre as duplas e 4º no geral, resultado muito bom mas que já nos deixou antever que a disputa este ano seria mais pesada (muito mais) que a do ano passado. Justificadamente, NINGUÉM QUER SER FEIO rsrs.

1º Dia – Platôs de Matapedia

Se no ano passado exploramos a faixa a leste de Carleton, região do rio Cascapedia, em 2015 a prova foi pro lado oposto, rumo oeste, na região do magnífico rio Matapedia.

Largamos cedinho numa tradicional fazenda canadense, com cavalos selvagens e tudo mais, de bike. (Pra nossa alegria todos os dias a largada foi de bike, nossa melhor modalidade!).
Estávamos de novo entre os primeiros (1ª transição em 3º Geral), pegamos nosso equipamento de canoagem e começamos um trekking com um trecho de rasga mato e outro de water trekking (caminhar dentro de rios) e chegamos na entrada da canoagem em 3º entre as duplas. Mais uma vez os rios da Gaspésie nos impressionaram com sua transparência inacreditável e foi com grande prazer que vencemos os 20km de canoagem.

A próxima seção de trekking foi na mítica trilha Apalache, que começa nos EUA e termina na ponta extrema leste do Canadá. Linda trilha, mesmo assim cometemos um erro bobo de navegação e perdemos 30 minutos e 5 posições nas duplas. Carniceria geral quando recuperamos o caminho certo e no fim do trekking (um rapel massa) já tínhamos recuperado um bom tempo. Aí era uma longa bike até a chegada, e conectado com o Brouzão fomos buscando um a um todas as equipes que nos passaram quando erramos, e terminamos a etapa entre os 5 na Geral! Recuperação realmente espetacular que me fez cruzar a linha de chegada em frangalhos.
Neste acampamento a Associação de Fazendeiros de Matapedia fez pros atletas salmão com ervas e picolé de Maple, além de vinhos e outras bebidas. Verdadeira festa no acampamento às margens do Rio Matapedia.

2º Dia: Nos arredores de Escuminac

Mais uma largada em fazenda, desta vez começando de bike numa subida monstruosa, depois um rasga mato inacreditável com as bikes e uma trilha espetacular na beira de um rio lindo e gelado (como pude comprovar quando tive que o atravessar a nado em busca de um PC). Mais subidas e um trekking nos levaram a mais uma seção (a mais longa) de canoagem em que mais uma vez saímos entre os 5 primeiros. Bike longa após o rio, estradinhas enlameadas de fazenda, depois reencontramos o mar e um trecho de quase 10km de costeira com natação e tirolesa (salto ao vazio). A disputa pela primeira posição também aumentou as emoções nesta costeira e sobrevivemos aos diversos ataques para chegar em 4º Geral!

3º Dia: No Maciço Saint Joseph

Largada para o último dia com visual de chorar: às 5h30 da manhã o sol nascendo coloria com as mais psicodélicas cores o céu sobre a Baía dos Calores, e nem o frio cortante nos tirava a animação para o dia que nos esperava.
A bike foi num ritmo intenso, e ficamos na liderança geral por um bom tempo, até que mais uma vez vacilamos ao passar direto por um PC e depois de 15 minutos empurrando as bikes vimos que tínhamos que voltar tudo para a cachoeira na base dessa subida, marcar o PC e subir tudo de novo.

Frustração no limite máximo. Mas corridas de aventuras são assim, e recomeçamos a fazer força buscando a liderança perdida. Mais trekking, natação em lagoas de altitude, canyoning e rapel, mais bike por trilhas, bike parks a praias e na chegada uma canoagem no mar com muito vento contra e finalmente avistamos a torre da Igreja de Carleton-Sur-Mer, que nos indicava a proximidade com a emocionante chegada.

Terminamos na 6ª posição geral, 3º entre as duplas, e fisicamente acho que foi a disputa mais intensa de que já participei. Nem preciso dizer o quanto foi incrível a experiência de passar esses dias ao lado do meu irmão e de inúmeros atletas de ponta do esporte mundial, ainda envoltos na natureza selvagem canadense.

Saímos da Gaspésie mais uma vez encantados com as belezas naturais e possibilidades imensas para os esportes de aventura, mas mais ainda com a energia dos organizadores, voluntários e público que nos apoiaram a cada instante da prova, incentivando-nos a dar tudo de nós mesmos e um pouco além.